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CARNAVAL

Outros carnavais: Veja o que rola ao redor do mundo enquanto o Brasil rasga a fantasia

Não se sabe ao certo a origem do carnaval. Os antropólogos suspeitam que tenha a ver com os míticos bacanais romanos. Mas o certo é que a bagunça vem de tempos ancestrais e não se resume ao que acontece em solo tupiniquim. Sem samba, mas com doses igualmente industriais de suor e cerveja, o carnaval pode ser um baile de máscaras em Veneza, uma catarse GLBT na Espanha ou até um ritual religioso, heresia ao contrário que acontece na Bolívia. A seguir, alguns exemplos do que rola pelo mundo enquanto rebolamos na Marquês de Sapucaí, nos beijamos pelas ruas de Salvador e levantamos os dedinhos entre pierrôs e colombinas.

 

Folia de rua em Nova Orleans

Durante os doze dias que antecedem a quarta-feira de cinzas, a cidade menos careta dos Estados Unidos – a única onde é permitido beber álcool na rua – é invadida por milhares de foliões. A festa é uma explosão de cores, alegria, música (e boas doses de seios ao vento, seja nos desfiles ou na plateia). Muita gente se fantasia. E quem não entra na onda usa pelo menos uma máscara ou um bead (colar espalhafatoso em milhares de variações, que é um dos símbolos da festa). Na caixa,  jazz, blues, country, reggae e hip hop, desfilando em carros alegóricos de nomes mitológicos como Bacchus, Adonis, Oshun, etc. 
Quando rola: Em 2014, a terça-feira gorda (mardi gras) cai no dia 4 de março.

 

Candombe, suor e cerveja no Uruguai

Não é exatamente samba. Mas é batucada da boa, que esquenta os ânimos e o coração. O ritmo frenético do candombe é uma herança dos escravos trazidos da África no século 18 para os arredores do Rio da Prata. As festas de rua, as llamadas, acontecem esporadicamente de dezembro até fevereiro, em Montevidéu e arredores, e se misturam aos desfiles de escuelas de samba, que se uniram à festa mais recentemente. 
Quando rola: Consulte o complexo calendário de eventos em no site Carnaval de Uruguay.

 

A festa do gelo em Québec, no Canadá

Haja disposição para encarnar o espírito carnavalesco com os termômetros marcando temperaturas negativas. Mas, desde os tempos coloniais (o Québec foi uma colônia francesa), os habitantes desta parte do Canadá se reúnem antes da quaresma para comer, beber e aproveitar a vida. Em 1955, a cidade estendeu a festa à rua e passou a organizar uma série de eventos durante entre janeiro e fevereiro – lançando mão de uma licença poética para chamar o conjunto da obra de Carnaval de Québec. O que rola? Esculturas espetaculares de gelo, brincadeiras para as crianças, corrida na neve em traje de banho (ui!), competições de vários esportes de inverno, shows, queimas de fogos... Tudo na maior alegria, na maior ingenuidade, no maior frio. 
Quando rola: Em 2014, os eventos acontecem ao longo do mês de fevereiro.

 

O carnaval santo do Oruro, na Bolívia

É colorido. É animado. Tem uma rainha – “la predilecta”. Mas é, ao fim e ao cabo, um festival religioso. Acredita-se que o Carnaval de Oruro, na Bolívia, tenha origem em rituais que acontecem há mais de 2 mil anos. O festival nasceu das tradições indígenas locais e, mais recentemente, incluiu a figura da Virgen de Socavón, protagonista do evento. A festa, quem diria, começa com uma procissão em homenagem à santa. Mas a parte divertida vem depois, quando quase meia centena de grupos folclóricos desfilam pelas ruas. 
Quando rola: Em 2014, o Carnaval de Oruro acontece entre 28 de fevereiro e 3 de março.

 

Pierrôs e colombinas no carnaval de Veneza

Na cidade mais romântica do mundo, o arlequim ainda chora pelo amor da colombina, mas não necessariamente no meio da multidão. O famoso casal, e também o pierrô, formam o trio de fantasias mais populares da festa, inspiradas na commedia dell’arte, manifestação de teatro popular que imortalizou as personagens. Mas atenção: maschere di carnevale é o nome que se dá ao traje todo, não simplesmente à peça que esconde o rosto. São fantasias pesadas, em geral veludo – afinal de contas, o Carnevale di Venezia acontece no auge do inverno do Hemisfério Norte. As origens da festa remetem ao século 12, quando a Serenissima Repubblica di Venezia venceu a guerra contra a Aquileia – importante cidade italiana naquela época – e celebrou com uma grande balada. Mas o auge da bagunça aconteceu no clima de “liberou geral” do século 18, quando povo e nobreza se misturavam nos bailes, que aconteciam em palácios e nas ruas. Hoje em dia, o carnaval é bonito de se ver. Mas não espere o mesmo clima de libertinagem de outrora, ainda que a alegria se arraste por quase 20 dias! A não ser em festinhas privadas (para as quais você dificilmente será convidado como reles turista), a “folia” se resume ao vai e vem de pessoas fantasiadas, desfiles e a alguns eventos comportados que acontecem nas praças. 
Quando rola: Em 2014, o carnaval de Veneza vai de 15 de fevereiro a 4 de março.

 

O carnaval durinho de Binche, na Bélgica

É tudo meio duro – afinal de contas, o frio é de matar. Mas tem confete, tem serpentina e (viva!) algumas das melhores cervejas do mundo, para lubrificar a sociabilidade que impera na cidadezinha de Binche na Bélgica profunda. Os desfiles são bonitos de se ver, ainda que seja humanamente impossível ensaiar alguns passinhos com a música que os acompanha, que certamente não faria feio numa parada militar. Para compensar, bonitas queimas de fogos iluminam a noite.
Quando rola: Em 2014, o Carnaval de Binche acontece entre 2 e 4 de março.

 

Catarse GLBT na Espanha

Não subestime os foliões espanhóis. Treinados em festas populares louquíssimas – que envolvem correr de touros e guerra de tomates – eles também rasgam a fantasia até que tudo se acabe na quarta-feira. Várias regiões do país celebram a data com a energia que a ocasião pede. Mas os carnavais mais famosos acontecem nas ilhas Canárias, arquipélago na costa da África que pertence à Espanha. Dizem os canários que se trata da segunda folia mais famosa do mundo, depois da carioca (será que esse povo já esteve em Salvador? Olinda?). Os epicentros são as cidades de Santa Cruz de Tenerife e La Palma de Gran Canária. Com uma forte pegada GLBT, a maratona começa com um concurso de rainhas e drags em que as valentes candidatas desfilam com fantasias que chegam a pesar cem quilos. Então a farra segue com paradas de carros alegóricos, blocos e uma balbúrdia de rua pra brasileiro nenhum botar defeito. E se você acha que tudo isso é um certo dejá-vù do que rola no Rio, espere até o final. O carnaval é encerrado com o “Enterro da Sardinha”. É o que parece: uma sardinha gigante é sepultada (ou melhor, queimada) e velada por milhares de viúvas, padres e freiras, que se arrastam aos prantos pelo “velório”.

 

Adriana Setti é jornalista, mora em Barcelona desde o ano 2000 e passa 4 meses por ano viajando pelo mundo. Suas passagens pelos 5 continentes rendem reportagens publicadas em diversas revistas brasileiras - como Viagem e Turismo, Claudia e Playboy - e em seu blog Achados no portal ViajeAqui. Siga @drisetti; no Twitter.

 

 

Imagem: Frank Kovalchek from Anchorage, Alaska, USA [CC BY 2.0], via Wikimedia Commons