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Você conhece a origem macabra da expressão 'Fulano está ferrado'?

 



  16 de Novembro de 2016

Você já ouviu ou falou a expressão “fulano(a) está ferrado(a)”, certo? Pois saiba que aí tem uma origem macabra que muitos desconhecem: vem do hábito de marcar escravos com ferro em brasa!

 

Este artigo foi criado pelo HISTORY em parceria com o Museu AfroBrasil

Marcar a pele dos escravos com ferro em brasa era uma prática bastante comum durante o período de escravidão no Brasil. Assim como o gado, o negro era tratado como propriedade passível de marca de identificação.

 

O pior é que havia base jurídica para justificar a marcação de escravos com ferro quente. Estavam nas Ordenações Filipinas Portuguesas, que vigoraram no Brasil de 1603 até a chegada do Código Civil Brasileiro, em 1916.

 

Nelas, os escravos e os animais eram tratados sem distinção. O senhor tinha direito, por exemplo, de “enjeitar [rejeitar] os escravos e bestas por doença ou manqueira, quando dolosamente vendidos”.

 

Nem a Constituição de 1824, que proibia açoites, tortura, marcas de ferro quente e todas as penas cruéis aplicadas aos escravos, surtiu efeito nesse caso.

 

Alguns eram ferrados ainda em sua terra-natal, antes do embarque. De acordo com Clóvis Moura, autor do Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, a palavra “carimbo”, que é de origem africana, surgiu a partir desse hábito.

 

Nem as crianças foram poupadas. Há relatos de escravos com 10 anos já com marcas da violência na pele.

 

A carne queimada dos escravos indicava a quem eles pertenciam. Era um mecanismo de controle cruelmente eficiente. Os jornais da época traziam uma seção denominada “Escravos fugidos”, em que descreviam o sujeito capturado e as iniciais.

 

Veja este exemplo de 1884:

“Acha-se acourado nesta cidade o escravo pardo de nome Adão de 29 anos de idade, pertencente ao fazendeiro abaixo assinado. É alto, magro, tem bons dentes e alguns sinais de castigos nas costas, com a marca S.P. nas nádegas. É muito falador e tem por costume gabar muito a Província da Bahia de onde é filho. Quem o prender e levar à casa de correção será gratificado com a quantia de 200$000”.  

 

Os “carimbos” podiam variar de acordo com o gosto do comprador. Alguns preferiam na coxa, outros no braços, no ventre, no peito e até no rosto. As marcas podiam ser letras, flores, símbolos ou sinos. Alguns dos que eram obrigados a se converter à religião cristã recebiam como recompensa um ferro incandescente em formato de cruz no peito.

 

Os escravos fujões ou aqueles que se rebelavam com frequência podiam receber uma nova marca, às vezes na testa, para tornar pública a insubordinação.

 

Os relatos obtidos em jornais e da época são de causar náuseas. O historiador José Alípio Goulart, revela, em seu livro “Da Palmatória ao Patíbulo – Castigos de Escravos no Brasil” que os escravos não eram feridos só com ferro em brasa – “com ponta de charuto, senhores de escravos divertiam-se fazendo chiar carne de negro.

 

A medida, apesar da violência, não foi capaz de deter a busca por liberdade. Nem o carimbo nem a mutilação (que era permitida em escravos que fugiam com frequência) surtiram o efeito desejado.  A luta por liberdade seguia inalterada.

 


Fontes:

GOULART, J.A. Da Palmatória ao Patíbulo – Castigos de Escravos no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Conquista, 1971.

MOURA, Clóvis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2004.

 

MUSEU AFROBRASIL
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Parceria: Museu AfroBrasil