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GIGANTES DO BRASIL

Percival Farquhar

Percival Farquhar foi um dos empresários mais poderosos que o Brasil já conheceu. O empreendedor se notabilizou por sua atuação na indústria ferroviária e pela exploração de minério de ferro.

Vindo de uma tradição disciplinada e ascética quaker, o norte-americano Percival Farquhar chegou aos negócios com um objetivo ousado e nada modesto: tornar-se milionário. Nascido em 1864, em Iorque, na Pensilvânia, cresceu em ambiente rico, embora sem ostentação, e logo se acostumou a frequentar altas rodas e conhecer membros da elite.

“Eu sou o homem que tudo financia.”

Com disposição para embarcar em projetos arriscados, ele decide se envolver em negócios no Brasil. Chega ao país com a missão de concluir uma negociação secreta de concessões de exploração de serviços públicos no Rio de Janeiro com seus detentores estrangeiros.

Antes de desembarcar no país, ele carregava a experiência como alto executivo de duas companhias ferroviárias nos Estados Unidos e já havia conquistado a concessão de ferrovias em Cuba e Guatemala.

No Brasil, Farquhar enfrenta a preocupação dos políticos que receavam deixar serviços essenciais da capital brasileira nas mãos de estrangeiros e sofre a concorrência de empresários como Cândido Gaffré e Eduardo Palassin Guinle, que tentavam obter a concessão para si.

Rivalidade com os Guinle

Misturando doses calculadas de pressão (até por meio do embaixador americano) e a enorme oferta de capital, Farquhar consegue derrotar a intervenção de Guinle e obtém a concessão para explorar serviços como o transporte de bondes, iluminação a gás e energia hidrelétrica por meio da Rio de Janeiro Light & Power. A empresa foi fundada em 1904, junto com o engenheiro norte-americano F. S. Pearson e o advogado canadense Alexander Mackenzie. 

Essa é uma das disputas entre Farquhar e a família Guinle, que tornam-se rivais constantes pelos próximos 30 anos. Alguns anos mais tarde, os Guinle conseguem um contragolpe na Bahia, vencendo a disputa pelos serviços públicos da capital Salvador. 

Estradas de ferro

Com a vitória no Rio de Janeiro, Farquhar começa seu projeto mais ambicioso: a construção e reforma de centenas de trechos de estrada de ferro, com o objetivo de interligar as Américas por meio de uma ferrovia Pan-americana. No Brasil, ataca em duas frentes: a estrada de ferro Madeira-Mamoré, no meio da Amazônia, e a Brazil Railway, conjunto de ferrovias localizado no sul e sudeste do Brasil.

No caso da Madeira-Mamoré, seu sucesso dependia do porto de Belém (outra obra de Farquhar) e da criação de uma companhia de navegação eficiente e da rentabilidade da borracha. As ferrovias do Sul (SPRG) dependiam da exploração da pecuária, da madeira e da chegada de colonos europeus.

Negócios que naufragam

Os negócios não vão exatamente como o esperado. O projeto da estrada de ferro no meio da Amazônia se vê falido com a entrada da borracha do sudeste asiático no mercado mundial. Farquhar inaugura sua ferrovia no meio da mata já sabendo que os negócios ali não tardariam a naufragar. No sul, explode uma revolta nas fronteiras entre os estados do Paraná e de Santa Catarina, parcialmente motivada pela expulsão de posseiros para a passagem da ferrovia e dos negócios de Farquhar. 

No Rio, o americano atrai publicidade negativa na imprensa. Ele faz uma oferta para comprar o porto de Santos, uma concessão da família Guinle. Isso foi visto como uma afronta, e os Guinle não economizaram esforços para agitar a imprensa contra Farquhar, especialmente por meio dos Diários Associados de Chateaubriand, o magnata das comunicações daquele momento.

Tempos difíceis

Os tempos ficariam difíceis para Farquhar. A disponibilidade de capitais na Europa começou a escassear por causa dos crescentes atritos diplomáticos e a guerra dos Bálcãs. A Primeira Guerra Mundial estoura e a insolubilidade financeira acaba por tornar-se irremediável. Assim, as empresas do americano são levadas à intervenção pelos banqueiros dos EUA.

Em 1919, Farquhar faz uma última grande aposta no Brasil: adquire a mina de Itabira para exportar o minério de ferro brasileiro. Mas essa disputa ele perde novamente os Guinle. O então presidente Getúlio Varga - opositor do norte-americano - decide se aproximar de Guilherme Guinle, filho de Eduardo P. Guinle, que lhe oferece um plano para viabilizar uma fábrica estatal, a Companhia Siderúrgica Nacional. Dessa forma, no início da década de 1940, o Estado desapropria Itabira, e Farquhar se vê derrotado mais uma vez.

Farquhar morreu no dia 4 de agosto de 1953 em Nova York, nos Estados Unidos.